terça-feira, 23 de maio de 2017

Cenas Da Caatinga


                                                                                         
       Numa dessa  viagens que  sempre  faço para fugir do desassossego e dos horrores  da multidão, voltei em Porto alegre -  pequeno povoado em Barragem de Pedra. Confesso que  vivo intensamente  e por sinal  sinto-me verdadeiramente livre nessas viagens. Eis, a cena bucólica,  repleta de lirismo  e tragédia que meus cansados e tristonhos olhos  deslumbram:  vacas e cavalos mortos, caveira vigiada  por  um  carcará ou urubu (verdadeiros donos de tais propriedades ), em contra partida  estamos na primavera catingueira, mesmo com uma seca severa.
As flores milagrosamente  despertam e desabrocham  cheias de beleza  e com um cheiro  que  visita a minha alma,  levando me para uma atmosfera  espiritual e bem mística (se olharmos atentamente para elas e deixarmos  seu cheiro penetrar na alma  naquele momento sentimos  a presença de Deus).
Completam o cenário  as casas abandonadas, a indústria da seca expulsou seus filhos para "sul maravilha", daí a desolação. Quando vejo o vazio desse sertão bravio fico feliz por saber que por essas bandas,   por tão cedo não vai haver aglomerados  de gentes e nem possibilidades de cidades, por  outro lado fico triste por saber que meus irmãos  catingueiros  estão sendo escravizados pela cultura do trabalho, do consumo num cenário bem mais cruel do que a vida simples e flagelada daqui da caatinga.
   
   


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Canto e encantos no mundo dos pequenos

Canto Santo


Caminho do pescador

Leito rio seco


O trágico da seca


Xique-xique


flor de quiabento

 Sabedorias e estórias do mestre Gambá

hora do descanso


Memórias


                                

Campo Largo

Na primeira quinzena de setembro dos anos oitenta do já sepultado século XX, ocorria a tão esperada boca-das-águas. O vento soprava do norte, redemoinho soprava de todos os lados, Ioiô silenciosamente pegava a sua bicicleta, enxada e se mandava para a lapa do mundo, com fé e esperança na quadra tão sonhada.
A partir desse momento as amarguras, que tinham morada na mobília de seu coração, pediam licença pra se retirar temporariamente, pois logo todos os sentidos do meu velho e companheiro avô seriam visitados com louvores dos cabeças-de-lenços, do canto fino de Zé Pretinho e com a visita de vários casais de preás. Seus olhos ficavam maravilhados com os bandos de ariris riscando os ares de um cenário que até pouco era opaco, tristonho e vazio de sentido.
        O que tem para ensinar um velho amargo que ficou órfão do riso ao perder o seu maior tesouro para o flagelo da seca? Todos os seus filhos o abandonaram, para ir à busca dum tal “futuro melhor”. A fortuna não lhe deixou ao relento de afetividade por completo, presenteou esse velho com um neto de “criação” pra ouvir seus ensinamentos e ouvir estórias com fundamento moral, estórias de cobras voadoras e encantadas, vermes de longos metros, filhos mais velhos que os pais, lajedos que serviam para se alimentar (lambendo é claro).
Todas essas estórias eram narradas com o intuito de me ensinar a ser um homem de boa vontade, ser um bom companheiro, nunca trair os amigos, e ser sempre grato aos céus por ter o que comer, “pois é melhor ter o que lamber, do que ficar sem comer” – dizia ele. Sempre que lastimava as minhas míseras condições, ele logo me lembrava de que “tinha pessoas que era tão desvalida, que não tinha nem o que se lastimar”.
    Se meu avô ficava alegre a ponto até de ensaiar alguns sorrisos com a visita da chuva, eu cá do meu lado, com alma de poeta, olhar atento de um bom aprendiz de filósofo, ficava deslumbrado com tanta beleza. As lagoas cheias no meu imaginário se tornavam vários mares, nesse vasto sertão de Deus. Via beleza nas flores amarelas dos imbuzeiros, na forma mágica como a caatinga se desabrochava com tamanha rapidez, com as chegadas de uma diversidade de pássaros, canto de sapo, tudo era festa, esperança e ilusão. Como a vida é engraçada, era um tremendo poeta, um excelente filósofo e não sabia. Oh tempo lindo aquele dos meus dez anos, que “mexe e vira , vira e mexe”, volta nas minhas lembranças. Saudades da minha infância? Ou o início das horas mortas do sonhar? Ou que quem sabe uma tentativa de renascer o poeta lá das quadras dos dez anos? Quem sabe! Eu cá não sei, só sei que tão pouco sei, mas sei que daria tudo que sei hoje por uns punhadinhos de momentos daquela infância querida lá no Campo Largo.


 por Gilson Rodrigues Bonfim
Setembro de 2010